Egoísmo Mútuo
1.
Não é culpa minha se a casca é uma só,
Não é tua culpa querer laços desmantelar,
Não é culpa nossa este oceano de ódio.
É culpa da genitora respirar e gerar.
Presas no ruivo contrato,
Presas no espelho do deus exterior,
Presas dos demônios de aço,
Donas do miasma e do bolor.
Faz-te dançar a música
Enquanto ela me parte
Em devaneios mudos
Que desprezam a realidade.
Olhos ébrios da mentira
Expurgados da inocência
Afogam-se no áspero riso
Escravo da carência.
O silêncio estupra nossa carne,
O grito violenta nossas irmãs,
O estertor desmancha nossa face,
O pesadelo rouba nossas manhãs.
O pêndulo do relógio
Mostrou-nos que o futuro é demais pra suportar,
As faíscas dos fósforos
São a matéria do cigarro e do sororal sabá.
Arrancamos a pele suja e exangue,
Contorcemos na heresia,
Flutuamos sobre o pentagrama,
O terrível éter pinga.
Abandono é guilhotina
Da suicida em dose dupla,
Tanto que festeja a vermina
No cadafalso do luto.
O que as flores veem em nós?
O que as flores veem em mim?
Geminianas, parceria tão só,
Gêmeas, antíteses de Virgem.
2.
A fria alvorada invade o gris céu,
Céu que julga as violetas na angústia,
Dá forças e dá machucados ao podre mel,
Mel que compõe nossa orquídea impura.
Já cristalizado o falho enigma,
O medo nos transmudou em um denso desgosto,
Não somos queridas e nem genuínas,
Quanto mais se cai, mais se nota a distância do topo.
Estripo-te em pó, em sombra, em mal,
Afogo-te com os leviatãs em cruel união,
Queimo-te no eclipse cegante, afinal
Sou a megera que rasga os pulsos da emoção;
Sou o Jörmundgander que tudo devora do Norte ao Sul;
Sou o Ouroboros que se esconde no Lete;
Sou a alquimista que se sacrifica a Belzebu;
Sou a serva negra e canina de Hekate.
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