Meu corpo coberto pelas violetas
Meu corpo coberto pelas violetas
(A morte das autoras nunca, — repete-se —,
[nunca se aplicou.
Mesmo depois de mortas as autoras.)
As dores me tornaram cega.
Mas não vejo Eigengrau.
Não vejo o Nada, não vejo o Abismo.
Não vejo a Foice tonitruante.
Eu vejo Gris e sua melodia.
Eu vejo a Lira de mil sentidos e de mil
[sentimentos.
Eu vejo a extinção da palavra "agridoce".
Minhas irmãs seguram minha mão,
Me fazem cafuné, cosquinhas,
Pegam e compartilham o mel
(— Ah, quando eu botava a ração na minha
Palma pra finalmente a Melzinha comer...),
Tornam a brisa suave,
Espiam a brasa do lume,
Filtram o fel,
Dominam a entropia,
Atenuam a menstruação
Do Sol que sempre irritou minha pele.
Me aproximam ainda mais de Pã.
Ao relento, conto-as, deitadas em
Meu colo, das histórias.
Essas pequeninas
Sonham muito enquanto dormem...
Gris e a Lira começaram
Seu cântico.
O Arcadismo aéreo,
Magistralmente ecoando
Pelo reflexo do oceano,
Alastrando sulcos pelas nuvens
De formas reconhecíveis,
Faz-me querer convidá-las a uma dança.
Ah, como sou boba...
Caminhando, de súbito,
Deparo-me com um maldito cigarro.
A lembrança do vício dela invade-me,
Como um olor espesso de destruição.
Aperto-me, contorço-me, rompe
Do elástico orgânico meu coração,
E ele salta, rodopia, cambalhota,
Bombeia fortemente
— Sempre bombeou.
Mesma coisa com a cerveja,
rum, uísque, vodka, breja, cachaça.
Quero quebrar todas as garrafas,
Quero pisar em todos os maços,
Em todas as caixas.
Quero examinar os pulmões dela.
Os rins. O sangue.
Quero encomendar todos os médicos
De Pasárgada, deixar a rainha enferma
Pra resolver o que realmente importa.
Que depois me acusem de nociva.
Caminhando, de súbito,
Deparo-me com a maconha.
Sorrio levemente como um tziu, lembrando
Dos futuros que ela planejou comigo.
Ouço as cachoeiras.
Gris e a Lira começaram
De novo seu cântico.
O Strophalos que pende em meus seios
É delicadamente puxado pela mais nova,
A sombra inocente se cruza
Com a experiente, incide a fusão
Crepuscular no reflexo do éter
E nas pétalas,
Alumbrando a alvorada.
A mais nova ri.
A mais nova lembra-me das crianças
De mim retiradas.
Eu e elas estamos na praia,
Algo de facto inabitual.
Não na putrefata de Santos,
Mas numa doirada, herança de Lesbos.
Nela, em cada grãozinho de areia
Habita um universo inteirinho.
Vou mostrar a elas
Como espumeja o barco ébrio latino.
Rumo ao
Interior do interior do interior do interior do
[interior do interior do interior do interior
De São Paulo. Um local isolado
Na sandice corruta, difícil de ir,
Difícil de se transportar,
E o pior: difícil de sair.
Porém elas,
Pelas alquímicas ondas,
Me contam do caminho
Que faz-se ao caminhar.
Se pelo menos Ícaro fosse um bom
[exemplo...
O turvo e impassível rio pardo
Não abaterá nossa nau, nosso fluxo,
Nossa reconstrução,
Nosso desejo
De estarmos na companhia dela,
De sermos pilares pra ela,
Não importa quantas vezes
Eu tenha de morrer...
[15 01 2026]
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