Gargantilha de Coração

Gargantilha de Coração

Na singela cabana alemã
Feita de madeira lapidada,
Um condor cantava de manhã
Enquanto a mais moça acordava,
Comera uma das suas gostosas maçãs
Antes de resplender mais do que a alvorada.

Lava seu rosto, enxerga nada,
Lava seus óculos, admira
A pintura viva e animada,
A obra maior que os céus divisa,
Tirando o ar de qualquer artista,
Mas, estranho, some do nada
Quando a jovem sai de perto
Do seu espelho e seu reflexo.

Seu coração, mais do que o Sol, quente,
Derrete antes do meio-dia toda a neve,
Já faz florescer de novo o intenso verde
E os seus carinhos matutinos já cede,
Prepara na mesa a sua frente
Um bom café que a sede cesse.

Seu longo, volumoso cabelo, mais ruivo
Do que os rubis de passadas imperatrizes,
Tem fios tão macios, saídos de um augúrio,
Tão afagados pelos beija-flores,
Que a sua dança no ar é a mais sublime
E pinta o seu redor com suas cores.

De tarde, planta pequeninas mudas
Com suas mãos suaves como flores,
Seus dedos gentis como pétalas puras,
Espalha por onde toca seus amores,
Riqueza que adorna com ternura,
Éter que apaga as más dores.

Sua meiga voz atrai os animais da floresta,
Enfeitiçados pelo seu ameno canto
Formam a mais cheia e encantada plateia,
Com seus ouvidos atentos e brandos
Se deleitam no som divino,
Deixam a tristeza, sorrindo.

Pelos Panteões louvada,
Cuida do mais lindo jardim,
Composto de violetas amadas,
Púrpuras iguais o infinito,
As flores que a beleza encarnam
Encantam a flora com seus caprichos.

A luz lunar a reflete belamente,
Igual o sabor do mais doce mel,
Seus olhos, mais negros do que a noite,
Carregam mais estrelas do que o céu,
Mais vastidão do que o espaço,
A quem se paralisa neles
Emitem um estrondoso silêncio,
O futuro, o presente e o passado
Se tornam um só neste momento.

Antes de se aventurar nos sonhos
Desbrava a moda com sua paixão,
Toneladas de roupas ao seu encontro,
Soberana ao pôr sua gargantilha de coração,
Rainha que manda e desmanda nas regras,
Continua delicada usando qualquer uma delas.

Na madrugada, eu já apronto,
Furtei, enquanto dormia Apolo,
Suas cordas radiantes de ouro,
As coloquei no meu violão louro,
E com os dedos que escrevo, toco,
Afirmando que nem no céu,
Nem no mar e nem no solo
Há algo que mais me inspira
Do que a sua presença em minha vida.

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