Natureza
Maria Laura e Violeta Blake,
Preciso vos dizer:
Não há felicidade na cidade grande.
Para nós, felinas,
O jeito mesmo
É ser andróide com os bichos,
No continente de intocado neon.
Visitar a comunidade das abelhas,
Caras amigas de nós, flores,
Doces confeiteiras de nós, méis.
Embalar no trem dos tamandúas
E fotografar o salão cor-de-jade
E a montanha-musgo da lagoa
Com minha câmera crocante,
E essa polaroid voará
Para o jornal impresso
Dos patos communards.
Se filiar no sindicato dos castores
E combater o peleguismo dentuço.
Entraremos com vestidos combinados
Pela tapeçaria negra da terra,
Dragões de bagas sorrateiros,
Na balada dos bichos-preguiça
E do mansos coalas.
As tatuagens de vocês duas
Feitas com as resinas dos relâmpagos,
Refinadas pelo komorebi tropical,
Artífice e arteiro, irmão do arco-íris,
Nossa nação movente.
Nossa beleza bondosa
Supera a do alvorecer dos cines.
Aventureiras dos dédalos, regatos,
Interiores correspondentes,
Construiremos nossos totens
Talhados de runas alquímicas,
E sorveremos as sinestesias
Para assar um bolo gostoso
Em nosso caldeirão bagunçado.
Beberemos o orvalho apaziguador
Vindo da bruma feliz e sutil.
Na rua das árvores que se remexem
Pertencentes à grande família das aves,
Tucanos de bico duro,
Pelicanos de papo gordo,
Beija-fores esguios como gotas,
Araras cor-de-mar,
Corujas misteriosas,
Bem-te vis ansiosos e tizius curiosos,
Pelo cimento oceânico,
Alvura um pouco movediça,
Brincar de pega-pega
Ao som da indústria azul,
Imparável e voraz,
Um castelo de som oculto,
Apenas a reconstrução
Das ondas de haikai.
Na feira imprevisível
Subiremos no coqueiro
E jogaremos um boliche
Bastante pequeno-burguês
No trânsito de frutas,
Vamos furtar as mangas
E pisar nas uvas,
Cacheadas como meus cabelos.
Nossas bruxarias caseiras
Vão desenhar novas constelações,
Celestes, terrestres e tetônicas,
E na pequena poça
Que vamos nos chacoalhar
Elas se juntarão
Em uma hidra infantil e inocente.
Ah, o banho de cachoeira.
Minha língua na de uma
Enquanto meus dedos
Exploram a caverna rosada da outra,
Seus minérios líquidos sensíveis.
Eu, novinha de ouro,
Cobrindo de pérola
Minhas mestras de rubi.
Nossos corpos abraçados
Como magma
E nossas bocas meigas
Como chuva.
O corpo fortudo da Vio
Apertando o meu e o da Mia,
Um aperto aconchegante,
Protetor como uma ostra.
Verão o que uma loira
Pode fazer com duas ruivas,
As góticas mais velhas do colégio.
Banhar nossa cabeleira,
De mãos dadas, toques gentis,
Cabeças juntas,
Na cascata suave, sonora,
Em uma dança lenta.
Vogar na calmaria
E entrelaçar nossas pernas
Boas de se tocarem.
Venerar o painel puro
Das costas da Vio,
Depois afundar meu rosto
Na barriga fofa da Mia.
Em nosso lar,
Uma cabaninha singela,
Baniremos as roupas.
Seremos camponesas despidas,
Com marcas coloridas de batom.
Nossa cama, de lã macia,
Será altar dos nossos sonhos.
Pelo negrume
Em nosso quarto decorado,
Dormiremos como um sanduiche recheado.
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