Agathós

Agathós

Já nasci morta no ventre de ferro,
Atraí monstros cínicos e céticos,
A própria Hydra se matou pois me quis,
Minh'alma é a emissária do caos e do fim.

Eu sou a fera que caça bondades,
As luzes se apagam na simplicidade,
Na arte de destruir eu tenho vários prêmios,
O Abismo do espelho não é nada efêmero.

Toque da morte, a ruína errante,
Passarinhos se afogam no meu sangue,
Abandonaram-me e abandonei junto o mundo,
Estou presa com Tânatos no esquecido profundo.

Paradoxo ambulante, sem razão,
Quando o 100% chegar, explosão,
A matéria se corrompe, se desfaz,
A angústia toma o controle da paz.

Vitórias não existem nas minhas guerras,
Cada perda é irrecuperável na Terra,
Quando escuto o eco daquele meu canto,
Costuro o meu ouvido e minha boca de prantos.

Mas a dor é tão aguda em todo luar
Que sem a escutar ouço a me desejar,
Invade meus olhos de botões,
Boneca de trapo dos panteões.

O rinoceronte zumbi se jogou,
Suas toneladas esmagam o que restou,
Seu chifre perfura meu fétido estômago,
Seus vermes se deliciam no podre do meu âmago.

Os cortes na minha pele estão gritando,
Mil percevejos meu coração devorando,
Ciclos de frustrações magoadas me culpam,
Cinquenta mãos escarlates me estrangulam.

Não param, não param, toda hora,
A intangibilidade me aperta e sufoca,
Vultos negros me observam de relance,
Eles aplaudem quando eu engulo o meu sangue.

Queimam minha carne as lâmpadas negras,
O quarto branco me exila com sua seda,
Tesouras, facas, estiletes, canivetes,
Formaram a minha eu exterior com febre.

Indiretamente formam a interior,
Eu sou podre, feia de alma, incolor,
A que deseja a cor primária, divina,
Mas ela me indeseja, sou insípida.

Casulo sangrento, átimo da culpa,
Mato mariposas, me matam às custas,
O que machuca mais, fingir que eu tô bem?
O que machuca mais, chorar por não fazer bem?

Do minarete, vejo o que mais desejo,
E ele é o mais distante, um pesadelo,
Sonhos não precisam de mim pra agir,
Fazem sem mim, fui expulsa, eu fugi.

Fugi de quê? Usei minhas pernas,
Pra fugir de mim ou da seca cisterna?
Usei minhas mãos pra me enfocar,
Ou pra matar a solidão de estar presa no ar?

O que tenho é amor, é amor,
É obsessão, um amontoado de dor,
Me apeguei ao que eu repilo,
Uma arma, três balas, um tiro.

Uma massa amorfa do acaso,
Eu me mudo sem escolher, atraso,
O relógio fala que eu devo me consumir
Mas já faço isso sempre antes de dormir.

O não-suicídio sempre me enfrenta,
Sempre perde, sem glória e sem pena,
Sou o Sol apagado que não se esquenta,
Lua cheia de remissão.

Dos terrores imateriais eu sou feita,
Abortada e errante que não mais tenta,
Referente ao meu estigma de "perfeita",
Eu sou desilusão.

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