Dose Tripla de Éter

Dose Tripla de Éter

Dentro do meu peito há um copo quebrado,
dentro dele um rubi se afoga em desespero
gritando pela volta do querido passado,
mas o tempo não volta, ele é efêmero.

Roubei os seus prazeres pra não perder os meus,
não vi a seca que causei no mar, no lago e no rio,
quem eu mais amei nessas terras nem disse um "adeus",
ficou tão árido meu deserto que ele nem mesmo sentiu.

Ecoa no copo falho aquele dolorido sibilo
que não chega nos meus ouvidos sibilinos,
Fausto pisou em falso ao fazer o pacto.

Mefisto se diverte ao queimar os livros,
eu não bebo nada, apenas minto e minto,
eu bebo veneno, morrem os pobres sátiros.

Dentro do meu peito há um copo sutil,
sempre que o tento pegar ele escorrega,
mas por um momento um efeito surtiu,
a amargura dele a boa brisa leva.

Não quero perder o meu calmo jardim,
memórias boas, novas, velhas, tortas,
quero regar a flora que há dentro de mim
e impedir que as flores sejam mortas.

Eu mudo, mas não posso ficar muda,
eu ainda sou uma pequena muda,
não preciso de açúcar ou pimenta.

A conhecida voz que falou "escuta"
faz nosso dueto de novo virar música,
não sai de mim, só me acalenta.

Dentro do meu peito há um copo de vidro,
ele é transparente e um tanto quebradiço,
às vezes ele transborda nos meus risos
e em outras, sai pelos meus olhos rendidos.

Já foi muito despedaçado, é algo dele,
eu sempre tentei o reconstruir sozinha,
mas os cacos sempre me cortam em meses,
então aprendi a ler as tais entrelinhas.

Vou o remontar junta com quem amo,
deixá-lo mais bonito de ano em ano
para que com quem adoro eu possa beber.

Eu irei me saciar ao escutarem meu canto,
eu vou poder gritar depois de tentar tanto
que o seu gosto impediu de eu me render.

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