Abandonada
Todo dia,
cada santo dia
eu repetia
as memórias da sua partida.
Ainda faço isso
mas está diferente, um obelisco,
algo mais grande e mais desprezível,
perfura dolorosamente meu coração de lixo.
Com você se foi tudo que eu tinha,
eu não sei mais o que é verdade ou mentira,
minha mônada é arrasada e vazia,
lá se foi o que viva me mantinha.
Naquele mundo sensível tinha alguma magia?
Só sobrou do mundo inteligível uma fatia,
bem podre e com desgosto, o que me fazia rir
como resposta hoje faz eu junto com a morte querer ir.
A felicidade melancólica me absorve,
a saudade na aproximação me envolve,
a raiva serena me marca e não some,
a querida dor de mim tem uma imensa fome.
Não sei se é um drama mas é um paradoxo,
são o que eu não tenho, meus óvulos
que antecedem a cesariana do meu óculos
que com a lente riscada permite um olhar póstumo.
Ainda há coisas escondidas? Não sei,
não sei se finjo que a minha dor mata um rei,
se ela é passageira e irá fazer com que eu fugirei
ou se ele me dopa e me impede de entender as tais leis.
Eu finjo tão completamente que me perco
nas suas e nas minhas mentiras, no meu medo,
no nosso egoísmo mútuo e no meu receio,
no que nós queríamos e deveríamos ter feito.
Sou desmotivada pela sua insensibilidade,
sou motivada pela sua sensibilidade,
gentileza que uma hora nasce e traz felicidade,
outra hora parte e com ela leva as memórias de bagagem.
Minha transitoriedade é surrealista e sem compaixão,
perde-se na minha denotação e na minha conotação,
não sei se o motivo de eu escrever é uma fútil ação
de tentar tirar de mim as frustrações e um pouco da razão.
Sua falta não faz falta, todo dia ela volta,
diferente de você, que se foi e causou uma revolta,
as lembranças dos seus olhos, voz, cabelo e rosto são tão sólidas,
todos os espelhos se quebram quando reveem que eu sou sórdida.
O que você me mostrou ainda não desapareceu,
uma roda, um rubi e um cubo que transpareceu,
uma dor imensa e uma desculpa que se esqueceu,
não mais o que é de você, o que é nosso e o que é meu.
Eu tenho algum selo de existência autônoma?
Eu sei o que me atrai na faca, a sua ponta,
quero me matar mas a sua imagem me afronta
e dialeticamente minha esperança desmonta.
Eu sou a mais fraca e a que tem a mais forte dependência,
a sua existência faz eu reviver todo segundo a minha decadência,
sumiu, tal qual você, o resto da minha autoestima e eficiência,
maldição, nós realmente viramos uma mera reminiscência?
Sou a poetisa que é eternamente adolescente,
neste breu não sei se isso é uma fraqueza decente,
de pensar em você, de fantasiar com você, com o que eu lembre,
no que sentimos, no que sentíamos, do antigo ao recente.
Também nas promessas que você mentiu,
disse que nós estávamos em sintonia, mas de nada me resumiu,
disse que seguraria minha mão na rua escura, mas o desespero pariu,
disse que sempre dialogaria comigo, mas de mim riu,
disse que me amava apesar dos meus erros, mas sumiu,
disse que não ia me abandonar, mas partiu.
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