Pés de Chumbo e Asas

Pés de Chumbo e Asas

O céu bege encanta a chuva de lama,
sou encarada pelos monstros das árvores,
o meu jardim místico tem má fama,
o espaço muda ao pisar na grama de mármore.

Eu repousava, sem sono e sem motivo,
de novo veio o monge budista,
foi me perturbar com seus aforismos,
uma troca equivalente? Esquisita!

Se eu arrancasse os meus pesados pés de chumbo,
em mim floresceria esbeltas asas,
trocaria o andar pelo voar no futuro,
atravessaria as brisas ávidas.

Mas, claro que eu não vou fazer a troca,
não sou estúpida para fazer isso,
eu viraria uma memória póstuma,
eu despencaria ao bater remisso.

Eu ainda quero aprender a dançar,
embora eu não suporte os seus pesos
e haja estas flores a me aprisionar,
sou a ré presa no solo e nos pesadelos.

Não enxergo a cor delas, nem lembro o nome,
mas lembro que eu as amava muito, muito,
muito tempo passou e se perdeu o renome,
amor...ou obsessão? Um curto-circuito.

Não quero as pisar, são tão lindas
embora cortam minha pele e carne,
engastei o rubi na estátua cínica
e ela me destruiu em várias partes.

Sou deteriorada pela ferrugem,
chumbo, chumbo meu, o que seria eu?
Uma figura amorfa? Uma nuvem?
A criança que pra sempre se perdeu?

Eu devo os esquartejar pra voar?
Eu vou ter algum descanso no céu?
dizem que é nadar sem se afogar,
mas as lágrimas já me afogam no pincel.

Na futilidade eu floresci?
Sou podada? Ou violentada?
O ignorável se apossou de mim?
Enquanto o vazio é cheio, sou o nada.

Eu não sou a filha do Sol, mas da lua,
veja a noite negra em mim, obscura,
a panaceia para minha muda
é o obelisco que os pecados perfura.

Vênus e Marte se colidiram,
a realidade se quebra aos meus prantos,
o que as tais asas em mim emitiram
é a saudade dos femininos cantos.

O efêmero e o etéreo se omitiram,
morrem serafins, anjos e santos,
as frotas do Inferno se rendiam,
os Nove Círculos viraram meu manto.

Apocalipse, oximoro de prisma,
caos do eclipse, a besta tira a vida,
surge a elipse do ciclo das mentiras.


------pés de pena e asas de chumbo, NÃO QUERO SENTIR.

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