Tempestade Doce
O meu remo quase quebrado
tenta mover o meu barco remendado,
estou à deriva neste mar abandonado
tentando sobreviver depois daqueles estragos.
A minha vida é estranha, ainda mais ultimamente,
perdida no mar sem saber para onde ir,
eu ainda estou viva, percebi isso recentemente,
mesmo assim eu não acho que o mundo precisa de mim.
As águas se agitam, o céu se escurece,
os ventos se fortificam, um furacão reaparece,
ele me faz voar junta dos meus desejos egoístas,
mesmo no ar eu ainda continuo sendo uma esquisita.
Ele lembra-me que eu não sou capaz de voltar no tempo,
que não posso escolher em trazer de volta quem partiu,
que não posso tentar refazer tudo de novo, então ao caos me rendo,
a chuva cai no ser que algo diferente de dor um dia já sentiu.
Mas mesmo se eu pudesse eu não tiraria vidas em prol dos meu sonhos,
não destruiria cidades pelos meus devaneios do meu mundo perfeito,
perfeito só para mim e distópico para você, então os escondo,
guardo todas as minhas mágoas dentro do meu peito.
Se os meus sentimentos são importantes,
eles ainda serão quando ferirem você?
Essa brisa fria congela a minha alma errante,
do confuso acaso eu estou à mercê.
O meu ego me conta mentiras dolorosas
e esconde verdades embora amargas, ainda bonitas.
Eu não consigo pousar por conta própria,
ainda não sei como não foi tirada a minha vida.
Vai demorar para eu cair, então para poder o tempo passar
relembrei daquele nosso antigo teatro, que na época
eu acreditei que era real, acreditei que eu pudesse amar
e genuinamente queria poder ser a sua asa, mas não passei de déspota.
Você exclamou para eu vir e ser seu Ariel,
ainda me arrependo por não cumprir todas as suas vontades,
eu falhei em voar nesse raivoso céu,
não consegui resistir na sua clamada tempestade.
Você me prometeu que o livre-arbítrio que eu cobiçava consequentemente seria meu
em troca do mar da minha alma que com medo me escureceu
e veio transformar o meu barco em brasa que com o vento me perdeu.
Ó, minha próspera, eu não suportei ver você voando por esse céu
e não quero que você tenha que suportar vendo eu me amargurar em tamanha dor cruel,
eu queria muito esquecer a liberdade e poder só a você ser fiel.
Caio nesse mar de água doce que me relembra da sua glicose,
a minha talassofobia que você queria que eu tanto curasse ataca,
ela me faz desmaiar enquanto afundo e regride a minha falha metamorfose,
não consigo mais respirar, a falta de oxigênio tira a minha calma.
De novo não sinto mais meu corpo e volto a ficar deprimente neste breu,
meus pesadelos retornam, me sinto amarrada numa corda,
a solidão que sempre me acompanhou de mim não se esqueceu.
Mas curiosamente, essa familiar doçura me acorda.
Enquanto eu me afogo, consigo sentir de volta o seu afago,
ele quer que eu volte logo pois tudo voltará a ser claro.
Consigo sentir o seu calor me reanimando e me puxando,
parte da minha dor retirando e o meu coração recuperando.
Seu doce canto para a agitação das ondas,
extingue todos os raios e cala todos os trovões,
deu de presente para mim esbeltas e exóticas conchas,
para me proteger domestica os golfinhos e os tubarões.
É tão forte a sua presença ao mesmo tempo que é tão dócil,
eu me sinto completamente protegida perto dela,
o clima álgido é trocado pela sua quentura que me concede ócio,
mas sua mansidão é tão clara que às vezes me cega.
O acalento da sua melodia me faz sorrir,
consigo me sentir mais leve e menos infeliz,
a sua gentileza me dá forças para conseguir lutar,
infelizmente dela ainda sou dependente para tudo aguentar.
Não importa a intensidade da correnteza,
não importa o quanto o vento sopre forte,
essa amizade não se quebrará, mas digo com certeza
que preciso parar de ser fraca e de depender da sorte.
Consigo voltar para o meu barco, respiro fundo,
não sei se é delírio meu ou se é você de verdade,
mesmo se for mentira eu sei que por um segundo
foi de verdade o que eu senti: Felicidade.
A ventania desaparece,
as nuvens desaparecem
e as alegrias reaparecem.
Dona das minhas lágrimas, percebi que elas são azuis iguais ao céu,
sei que de mim não tem lástima, coloriu-me de novo com o seu pincel.
Sempre depois da tempestade o Sol volta e a calmaria vem,
ainda mais nessa sua Tempestade Doce que me faz tão bem.
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